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Como as redes sociais se tornaram um dilema na vida das pessoas

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Semana passada, depois de assistir a “O dilema das redes”, o jornalista Bruno Torturra, editor-chefe do “Greg News” (HBO), escreveu uma thread no Twitter com algumas críticas ao documentário — especialmente à visão de que o Vale do Silício tem condições éticas de resolver os diversos problemas que nos afetam hoje, como a falta de atenção, exacerbada pela pandemia:

— A radicalização dos encontros virtuais, a rede social como mediador definitivo entre minha casa e o mundo externo detonou de vez meu foco — diz Bruno. Para ele, a boa vontade dos engenheiros da Califórnia não é suficiente

A atriz Juliana Paes perdeu o sono depois de assistir, semana passada, a “O dilema das redes” , documentário da Netflix em que nomes influentes do Vale do Silício expõem os perigos ocultos no Facebook, YouTube e outras plataformas que eles mesmos ajudaram a criar.

— É muito assustador ouvir os depoimentos das pessoas que trabalharam lá por tanto tempo construindo coisas que fazem você ficar viciada — espantou-se a atriz. — Uma frase me marcou: “Quando você não sabe qual é o produto, é porque você é o produto.”

‘O dilema das redes’: mídias sociais ajudaram a criar geração ansiosa e deprimida

A angústia não é só dela: o desconforto com os efeitos nocivos das mídias sociais atinge celebridades, pessoas comuns e especialistas. Um grande número de estudos acadêmicos, filmes e livros sobre o tema tem sido publicado nos últimos anos. São lentes que ajudam a enxergar além das bolhas programáticas em que caímos ao entregar nossos dados e hábitos ao TikTok ou Instagram.

Dieta digital: Somos usuários das redes, ou usados por ela?, pergunta consultor de Joe Biden

Um estudo de 2019 — na verdade, uma compilação de diversas pesquisas de universidades como Oxford, Harvard, King’s College, Western City University e Manchester University, publicada na revista “World Psychiatry” — concluiu que a atividade digital está literalmente modificando nossos cérebros, em especial em regiões ligadas a atenção, memória, e até mesmo a nossa capacidade de associar nomes e rostos. Quanto mais aumentamos o foco, melhor vemos que os dilemas do ciberespaço extrapolam — e muito — os algoritmos das redes sociais. E vêm de longe.

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— Não fazia sentido regular, lá na década de 1990, como as redes sociais deveriam ser criadas. Era uma inovação — lembra Silvio Meira, professor emérito do Centro de Informática da UFPE e fundador e presidente do Conselho de Administração do Porto Digital, em Recife. — Por outro lado, não fez sentido deixá-las evoluir sem que se demandasse um conjunto de padrões abertos que levasse à interoperabilidade entre elas.

Especialmente num lugar como o Brasil atual, onde a maior parte das pessoas se conecta à internet por celulares. Nesses telefones, muitas vezes navegar se restringe ao Facebook e ao WhatsApp, oferecidos gratuitamente pelas operadoras. Essa “internet 0800”, segundo Meira, “reforçou as bolhas sociais” para boa parte da população.

— A internet foi pensada para ser uma rede de redes; o próprio nome INTERnet vem daí. Hoje, é cada vez mais uma rede de silos, isolados, quase únicos em suas geografias. Nas discussões sobre o Marco Civil da Internet, há mais de meia década, estava claro que essa iria ser uma das formas de driblar o princípio da neutralidade de rede. Resultado? Dados “patrocinados” são componentes muito usados nos modelos de negócios digitais no país hoje — diz o professor.

PUBLICIDADE Proposta em 2009, a lei do Marco Civil da Internet foi sancionada em 2014. O advogado Ronaldo Lemos, especialista em tecnologia, mídia e propriedade intelectual, foi um de seus formuladores. Seis anos depois, ele avalia que o Brasil ainda possui lacunas “gigantescas” em conectividade:

Essa tarefa cabe ao poder público em parceria com o setor privado. É preciso fomentar conectividade universal ilimitada e barata. O 5G, por exemplo, é uma oportunidade de ampliar o acesso. Mas precisa ser bem aproveitado e desenhado do ponto de vista regulatório para isso — aponta Lemos.

Resistência Em Heliópolis, maior bairro de São Paulo, com um milhão de metros quadrados e 200 mil habitantes, os pesquisadores do projeto De Olho na Quebrada não vão esperar o 5G. Há dois anos, eles coletam dados de uma população que tem pouco acesso digital além da “internet 0800”. Mas, em vez de lucro, transformam essa informação em conhecimento e compartilham com a comunidade via WhatsApp, Facebook e Instagram. Melhor informada, a população já cobra por melhorias.

Aqui, de um jeito ou de outro, todo mundo tem um celular. É lá (no Facebook) que as pessoas estão. Então é lá que a gente tem que estar — ensina João Victor da Cruz, estudante de Biomedicina e pesquisador do Observatório.

Bem longe dali, em Lençóis, cidade baiana com apenas dez mil moradores, o ponto de cultura Grãos de Luz e Griô usa o WhatsApp como sala de aula desde 2014, num pré-vestibular com links do YouTube, exercícios em PDF e dúvidas tiradas no privado com os professores. A cidade, hoje, já tem muito mais jovens universitários.

PUBLICIDADE — O uso das redes permite que estes grupos, em áreas urbanas e rurais, disputem um espaço que antes talvez não fosse tão fácil disputar. É um elemento central para eles — constata Livia Salles, analista de Programas da organização internacional ActionAid, que dá suporte a projetos como os de Heliópolis e Lençóis.

Ou seja: no “mundo real” é difícil ficar longe do virtual. E o problema não é apenas o (ab)uso comercial de nossos dados. Os algoritmos também roubam nossa atenção, e os sintomas são bem visíveis. A última pesquisa “Retratos da Leitura” mostra que o Brasil perdeu 4,6 milhões de leitores entre 2015 e 2019, enquanto 49% dos americanos passaram a ouvir menos discos completos entre 2014 e 2019, segundo estudo da plataforma de streaming Deezer.

Semana passada, depois de assistir a “O dilema das redes”, o jornalista Bruno Torturra, editor-chefe do “Greg News” (HBO), escreveu uma thread no Twitter com algumas críticas ao documentário — especialmente à visão de que o Vale do Silício tem condições éticas de resolver os diversos problemas que nos afetam hoje, como a falta de atenção, exacerbada pela pandemia:

— A radicalização dos encontros virtuais, a rede social como mediador definitivo entre minha casa e o mundo externo detonou de vez meu foco — diz Bruno. Para ele, a boa vontade dos engenheiros da Califórnia não é suficiente.

PUBLICIDADE — Não temos poder real sobre essa esfera que se traveste de pública, de livre. Mas não passa de um feudo estruturalmente imutável por quem vive e depende dele. Então quando deixamos de lado esse debate proposto pela comunidade do software livre, estamos justamente abandonando a fronteira mais importante da democracia: a transposição da cidadania do mundo físico para o mundo digital. É aí que eu acho que o filme erra feio. (Colaborou Pedro Willmersdorf)

Para entender o dilema

“Manipulados” , de Brittany Kaiser (Harper Collins, 2020).Ex-funcionária da Cambridge Analytica, a autora conta em detalhes como sua antiga empresa e o Facebook invadiram a privacidade de milhões de pessoas e abalaram a democracia em escala planetária.

“A nova idade das trevas” , de James Bridle (Todavia, 2019). Como chegamos até aqui? Os avanços tecnológicos são realmente o caminho para o progresso? O escritor e artista britânico Bridle recorre à arte e à ciência para revelar como os nossos sonhos digitais se transformam em pesadelos.

HyperNormalisation, de Adam Curtis (BBC, 2016).O cineasta britânico viaja dos anos 1970 até hoje para demonstrar como governos, financistas e gurus tecnológicos construíram o “mundo falso” em que estamos presos atualmente, “hipernormalizando” a derrocada da democracia.